“O rei e o menino”: a beleza da vocação

Como já vimos de outras vezes, Dr. Plinio servia-se amiúde de metáforas para explicar a seus jovens ouvintes as realidades profundas da vida do católico, à luz das verdades da Fé. Através da parábola narrada a seguir, faz-nos ele compreender a importância de um dos momentos mais decisivos na existência do homem sobre a Terra: aquele em que recebe o chamado de Deus, a vocação. Acompanhemos a linguagem clara e simples de Dr. Plinio descortinando o fascinante tema da voz divina a ressoar nas almas, convidando-as a seguir um caminho sublime e, não raro, semeado de provações…

 

Imaginemos um monarca que passeia de automóvel pela capital de seu reino. Viúvo, cujo filho único e herdeiro morreu ainda criança, o resto de sua família se extinguiu sem descendência e, portanto, não há quem dê continuidade à dinastia. Entretanto, por uma dessas coincidências existentes na natureza, reside na mesma cidade um menino que, embora de traços fisionômicos semelhantes aos do falecido príncipe, não tem com a casa real nenhum parentesco.

O encontro com outro possível herdeiro

Quando o carro do soberano se detém num cruzamento, os olhos dele recaem sobre aquele menino a atravessar a rua, e o rei, impressionado pela semelhança com o ex-herdeiro, manda chamá-lo. O garoto, ao mesmo tempo surpreso e maravilhado, aproxima-se timidamente e pergunta:

— Majestade: em que posso servi-lo?

— Sente-se ao meu lado, quero conversar com você.

O trânsito engarrafado não permite que o automóvel se desloque. O rei indaga do menino sobre seus estudos, sua família, trabalhos. Durante esse tempo, o menino não pensa em si, mas apenas no soberano. Este não observa o movimento das ruas e presta atenção somente no menino. Percebe que ele inspira boas esperanças e poderia ser adotado como seu filho.

Despedindo-se do jovem, o monarca lhe diz:

— Esteja às tantas horas no meu palácio com seus pais. Desejo conversar com os três.

O menino é adotado pelo rei

No momento aprazado, os três comparecem. São pessoas modestas, maravilhadas diante dos esplendores da residência palacial, entre as quais transitam com encanto e receio. Pisam sobre um tapete persa, e o marido diz à mulher:

— Que tapete magnífico! Parece até com o da casa do subprefeito de nosso distrito, que pertenceu ao xá da Pérsia e foi comprado num antiquário…

Após vários deslumbramentos, chegam à presença do rei. Este os recebe com extrema bondade, põem-se a conversar, e à certa altura o soberano diz:

— Desejo que este menino seja meu herdeiro. Se consentirem, eu o adotarei como filho e o educarei para as funções régias. Quando eu morrer, será o novo monarca, e vocês terão a honra que jamais imaginaram: tornar-se-ão pais do rei.

O casal possuía uma prole numerosa, e já não sabiam o que fazer com tanta criança dentro de casa. Estupefatos com a proposta do rei, pensam:

“Teremos um filho tão bem instalado! Que alto negócio! Depois, receberemos torrentes de dinheiro para educar de modo conveniente os outros e assim todos farão carreira promissora. Além disso, ganharemos um prestígio sem nome no bairro onde moramos. Ao chegarmos em casa e nos perguntarem pelo menino, poderemos responder:

“— Está no Palácio real. Ele agora é filho do rei.

“— Como?! Filho do rei?!

“E contaremos toda a história. Que ótimo negócio!”

Contentíssimos, aceitam a proposta do soberano e se retiram.

Sinceridade e gratidão submetidas à prova

Sobrevém a noite e o rei ordena aos seus mordomos:

— Levem o menino para o quarto de dormir de meu falecido filho. Está tudo preparado, vistam-no com aquelas roupas, ofereçam-lhe os alimentos que desejar, sirvam-no como o faziam ao príncipe. Quero que ele seja beneficiado com toda a largueza da munificência real.

O menino vai sendo educado, torna-se moço e convive de modo perfeito com o rei. Tudo corre com normalidade, porém no espírito do monarca nasce uma interrogação: “Esse menino me quererá verdadeiramente bem? Ser-me-á agradecido pelo que recebe de mim? Tornar-se-á digno de um dia dirigir meu reino? Ou é um ingrato que me agrada por interesse momentâneo, e, no fundo, não me tem sincera amizade? Para conhecer as respostas a essas indagações, vou submetê-lo a uma dura prova, pois se não o fizer, minha generosidade pode significar grande estultice. Mas, se corresponder às esperanças nele depositadas, dar-lhe-ei coisas ainda melhores e mais abundantes”.

O rei chama o jovem e lhe diz:

— Nossa situação parece maravilhosa. Você tem a certeza de herdar um trono. Portanto, posição magnífica o aguarda. Porém, precisa se preparar, pois a vida é feita de surpresas, e a História apresenta vários exemplos de reis que foram inesperadamente depostos do poder. Eis aqui um livro sobre monarcas destronados. Estude-o para conhecer o papel da traição na queda dos reis e aprender como a condição de soberano, embora firme na aparência, é de fato instável e mutável. Após esse estudo, você será examinado. Veja a vida em cor séria e compreenda o esforço necessário para se manter como rei. Se for mole, o monarca perde o trono e o poder.

Exerço a realeza há muitos anos. O povo me obedece, é verdade, mas que vigilância preciso ter! As coisas não são fáceis. Se o encargo de rei lhe parecer por demais árduo, dar-lhe-ei dinheiro para você seguir a profissão de seu pai, montar uma lavanderia maior e prosseguir na existência tranquila de um qualquer. Porém, não será rei, nem desfrutará das honras e glórias da condição régia. Você se enfurnará no anonimato. O anônimo: que homem feliz! A quem ninguém ama nem odeia. Possui dinheiro para subsistir e leva uma vida sossegada.

Você já pensou nas vantagens do anonimato? Passeie um pouco pelas ruas, observe os moços de sua idade, felizes nos seus automóveis, levando a existência agradável e sem incômodos dos homens abastados e desconhecidos.

Você, não! É um príncipe, e deve proceder como tal, em quaisquer circunstâncias. Os olhos de todos estão voltados para sua pessoa. Ainda ontem o criticavam pelo simples fato de brincar com os dedos enquanto conversava. Não é atitude permitida ao herdeiro do trono. Já pensou na vida dura que terá?

Meça o peso do fardo que cairá em suas costas. Receberá honras e riquezas, mas utilizá-las com desapego é como carregar um rochedo pela vida inteira. É o meu caso.

O menino pensa um pouco e responde:

— Obrigado! Vou ler o livro…

A resposta errada

Terminado o prazo estipulado para o estudo, o rei manda chamar o menino e lhe pergunta:

— Leu a obra?

— Sim, li.

— E a que conclusão chegou?

— Não pensei que exercer a realeza fosse tão difícil, pois conhecia apenas uma faceta dela. Porém, acredito que, sendo tantas as vantagens, vale a pena carregar o fardo. No total, prefiro herdar o trono. Desejo ser rei!

O monarca diz:

— Não é a resposta correta que esperava de você. Dou-lhe mais um prazo para pensar. Se, por fim, responder como deve, merece reinar. Do contrário, perderá seus direitos, porque ficaria demonstrado a nulidade de tudo que fiz por você.

Tendo acabado de declarar sua intenção de ser rei, o jovem vê seus planos caírem subitamente por terra. Como poderia encontrar a resposta adequada, sozinho, pois que lhe estava vedado consultar qualquer pessoa?

— Nesse período — dissera-lhe o rei — você estará proibido de conversar com quem quer que seja, assim como de se ausentar do palácio. Descubra a resposta correta. Quero ver que espécie de sentimento você guarda no fundo da alma.

A resposta perfeita

Estaria o monarca agindo bem, ao tratar o jovem dessa forma?

Sim, seria o normal. Ponha-se cada um na posição do rapaz. O que responderia ao rei?

A resposta perfeita seria a seguinte:

— Meu senhor e meu pai. Não me importa saber o que acho agradável e sim como vos poderei retribuir por tudo o que fizestes por mim. Se vos ampararei na vossa velhice; se, quando assumir o trono, terei bastante amor à altivez, à glória, à elevação dos princípios, à civilização cristã, a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Santíssima Virgem, de maneira que eu faça do meu “métier” de rei um serviço de Deus. Houve tantos santos entre vossos antepassados! A capela do palácio é consagrada a São Luís IX. Nesta sala tendes uma imagem de Santo Henrique, imperador do Sacro Império e também vosso ascendente. Tudo isto ameaça se extinguir em vós porque vosso único filho faleceu. Cabe a mim a glória de dar continuidade a essa linhagem e não permitir que o fio se interrompa.

Meu pai e meu senhor: não me interessa saber se levarei uma vida gostosa e sim se estarei à altura dessa missão. Ensinai-me a ser cada vez mais piedoso, mais dedicado a vós, que sois a mão de Deus para mim. Quero a felicidade, mas sobretudo para o momento em que eu expirar e, comparecendo diante do Altíssimo, puder exclamar: “Senhor, vós me destes o ser e um pai adotivo me outorgou a realeza a qual aceitei para vossa glória. Dediquei-me totalmente a ele, pois assim o fiz por Vós, Criador de todas as coisas. Não temo encontrá-lo na vossa corte celestial, aonde ele me precedeu, porque sei que, pousando sobre mim seu olhar amoroso, dirá: ‘Meu filho, agora mais filho meu do que nunca, senta-te à minha direita! Vamos contemplar juntos a Deus, o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, que domina todos aqueles que exercem domínio’”.

E o jovem, correspondendo às expectativas do monarca, deveria acrescentar:

— Posso sofrer muito, ser mal compreendido, perseguido, destronado. Posso, pelo contrário, ser glorificado, aclamado, tornar-me célebre. Pouco importa! O caminho que devo trilhar é o do dever, da gratidão a vós e do serviço de Deus.

Após dar essa resposta, o moço se retira da sala e o rei diz a si mesmo: “Minha dinastia renasceu!”

Segunda provação: a indiferença real

Prosseguindo em nossa metáfora, imaginemos que em determinado momento o rei decide sujeitar este filho a outra prova. Passa a fingir que já não lhe demonstra a mesma amizade, não o compreende bem. Olha-o com indiferença, até com certa distância. Concede-lhe audiências curtas, presta-lhe pouca atenção, evita-o em favor de outras coisas menos importantes. Chega a ponto de conversar com terceiros, na presença dele, sobre reis viúvos e sem filhos que casaram novamente, tiveram prole e asseguram sua descendência. “Quem sabe eu sigo o exemplo deles, contraio outras núpcias e tenho um herdeiro do meu próprio sangue?”

O menino adotado sente-se rejeitado, mas pensa:

— Recebi tanto dele! Ainda que me tire tudo, eu o servirei a vida inteira!

E ele passaria por essa segunda prova, ainda mais cruel que a anterior.

Terceira e última provação

Contudo, o soberano precisava de uma derradeira demonstração de fidelidade da parte do menino. Certa madrugada, manda acordá-lo e trazê-lo à sua presença:

— Preciso incumbi-lo de uma missão perigosa e confidencial. Em país distante há um preso que espera essa mensagem minha. Você terá de viajar para lá, dizer que é meu filho, deixar-se prender e, conduzido ao mesmo cárcere, transmitir o meu recado à pessoa em questão.

O jovem, embora surpreso, não hesita em responder:

— Meu senhor e meu pai. Se me permitirdes de vos tratar ainda dessa maneira, minha vida é vossa!

O rei então acrescenta:

— Não sei quanto tempo o manterão encarcerado. Pode levar anos. Se, estando lá, ouvir dizer que me casei e tive um filho, reze por mim e por este, pois será o sucessor do trono.

O rapaz diz:

— Meu senhor e pai, farei isso com todo o empenho. A que horas devo partir, com quem devo falar? Dai-me vossas ordens.

Responde-lhe o rei:

— Você tem uma hora e meia para estar pronto e sair. Já tratei muito com você e o conheço bem. Diga-me rapidamente até logo e vá embora!

O rapaz se inclina e se retira.

Na hora exata, ele se apresenta disfarçado diante dos guardas do palácio, pois, conforme as instruções do soberano, ninguém deveria saber de sua partida. Mas, para a surpresa do jovem, os sentinelas o impedem de sair, dizendo-lhe: “O rei ordena que volte para seu quarto!”

Ele retorna e o monarca o acolhe com transbordamentos de agrado.

Estava assegurada a sucessão do trono nesse reino mítico e maravilhoso…

Analogias com a vocação

Essa metáfora se aplica à história de cada um de nós que recebeu o chamado para seguir as vias de uma determinada vocação. Por exemplo, à do nosso movimento. Não nos convidou a ele um simples rei, mas alguém com brilho insondavelmente maior: Maria Santíssima, Rainha do Céu e da Terra. De modo semelhante ao do rei imaginado, por vontade divina Ela nos escolheu para servi-La de maneira muito especial.

Qual era a vida de cada um de meus ouvintes antes de pertencer à nossa família de almas?

Fomos chamados em circunstâncias as mais diversas. Se procedemos de um ambiente que preparou nossa vocação, quanta graça a Providência nos concedeu nesse sentido, dispondo que tudo favorecesse a aceitarmos esse convite. Se, pelo contrário, viemos de um meio adverso, quanta misericórdia do Criador, ao olhar para o lugar em que crescemos e dizer: “Aqui escolherei um filho, um príncipe!”

A graça passou a latejar em nós

Sem sabermos, iniciaram-se movimentos no interior de nossas almas. Um senso moral mais vivo nos fez estranhar os procedimentos pouco recomendáveis que presenciamos neste ou naquele ambiente, e passamos a desejar as atitudes virtuosas contrárias ao que nos aborrecia. A graça latejava em nossos corações, dizendo-nos: “Que coisa péssima! E que linda, tal outra! Como são belos tais monumentos da Cristandade, tal música, tal época do passado! Como seria bom se o que há de errado no mundo moderno se consertasse!”

Começou a surgir em nossa alma a oposição ao mal.

Assim, cada um de nós foi chamado. Em diferentes cidades, Estados, condições de vida e, às vezes, até no fundo de uma queda moral. Caiu… e em determinado momento teve horror de si mesmo. Era Deus falando no interior da sua alma, chamado-o para amá-Lo.

 

 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Continua em próximo número.)

Revista Dr Plinio 96 (Março de 2006)

 

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